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ARQUIVO 29
EDIÇÃO 64 - MAI 2009 - Carlos Haag | Antonio C. Fernandes
Fordlândia, um sonho americano na Amazônia
Henry Ford montou às margens do rio Tapajós, em 1927, a Fordlândia, cidade erguida para produzir borracha e repleta de elementos estranhos aos brasileiros: maquinários sofisticados, carros, campos de golfe, sirenes de fábrica e cartões de ponto.
A Amazônia, quem diria, já abrigou um dos mais audaciosos empreendimentos da borracha, projeto para dar amparo à recém-nascida indústria automobilística. E foi exatamente o americano Henry Ford quem jogou todas as cartas – e US$ 20 milhões em valores da época – nessa aventura chamada Fordlândia, uma cidade construída à beira do rio Tapajós, em 1927, e que deveria produzir a borracha que o mundo moderno pedia - o projeto incluía, além da Fordlânia famosa na época, sua cidade-irmã Belterra.

No início dessa história, existe um outro Henry, só que inglês, o explorador Henry Wickham ( 1846-1928), que antes da empreitada americana levou daqui, em 1912, 70 mil sementes da “Hevea brasiliensis’, a seringueira, para replantá-las na Malásia Britânica e dar cabo do monopólio brasileiro da borracha.

A pirataria inglesa deu certo. A Ásia era dominada pelo sistema colonial inglês e holandês, e a Malásia se encaixou perfeitamente no jogo da Inglaterra: a seringueira foi adiante, a mão-de-obra era barata e as condições eram perfeitas para a atividade extrativista em plantações de baixo custo.
“Enquanto a borracha brasileira era coletada na selva, a produção não poderia ir além de 40 mil toneladas por ano por melhor que fosse o preço. Essa quantidade era insignificante em face das crescentes aplicações industriais da borracha”, escreve Warren Dean em seu “A luta pela borracha no Brasil”, em matéria publicada na Revista da Fapesp.

Tudo trabalhava a favor dos ingleses. O mundo se meteu a andar de bicicleta, o que deu início ao “boom da borracha”, processo acelerado a partir de 1900 com o desenvolvimento da indústria do automóvel. E o preço da borracha foi às alturas.

Só que a produção da Malásia foi longe demais, e os preços, logicamente, despencaram. Entrou em cena então o governo inglês para conter a produção e elevar os preços. Foi quando os americanos, grandes consumidores da borracha, resolveram dar um basta na história e cuidar de produzir sua própria borracha. Encontraram então um homem disposto a enfrentar o cartel inglês: Henry Ford, fundador da Ford Motor Company e o primeiro empresário a aplicar a montagem em série para produzir automóveis em massa.

 

Navios americanos
Em 1927 chegaram ao Brasil dois navios americanos e trouxeram tudo para levantar na Amazônia um típica cidade americana, com a condição de que as autoridades brasileiras não interferissem em nada do que fosse feito em território nacional. Vieram equipamentos avançados e conceitos de trabalho próprios das relações capitalistas de produção: horários, uniformes, cartão de ponto, sirenes de fábricas e assalariamento.

Pelo planejamento da companhia, havia capacidade de trabalho para 30 mil homens, o que daria para revolucionar o mercado mundial da borracha. Detalhe: Ford proibia o consumo de bebidas alcoólicas e prostituição dentro dos portões da fábrica, além de recomendar o plantio de flores para embelezar o local de trabalho. Foi quando os homens passaram a buscar regiões vizinhas, chamadas de “Ilha dos Inocentes”, para ter folga dos chefes americanos.

As casas eram feitas em estilo americano, com telhados baixos e janelas grandes, um convite para os mosquitos da região. Na fábrica, tinha o relógio de ponto e os horários controlados por apitos e por fiscais. Ford exigia também uma comida saudável, o que incluía comer aveia no café da manhã. Havia, porém, escola para as crianças e salários altos pagos com total pontualidade.

Mas o descontentamento com a rigidez do trabalho estava no ar. Enfim, a rebelião era iminente. E a mudança do sistema de alimentação foi o estopim. Em vez de serem servidos pelas mulheres, os trabalhadores se viram um dia diante de bandejões. “Não somos cachorros”, se revoltaram. A turma da companhia teve então que passar a noite num barco no meio do rio, sendo resgatada no dia seguinte por um destacamento policial. O feijão e a farinha voltaram para o prato dos trabalhadores.

O negócio caminhava aos tropeções. Sem muitos conhecimentos do cultivo da seringueira, a Fordlândia passou a não mais encontrar mão-de-obra para a empreitada, mais interessada em atividades sazonais sem sirenes, e as seringueiras que vingaram foram atacadas pelo “mal das folhas”. Sem falar no estouro nas contas.

 

Campos de golfe
O investimento inicial previsto para a “plantation”, que seria suficiente para abastecer a demanda interna da Ford Company, era de menos de US$ 2 milhões. “Em duas décadas, Ford gastou milhões de dólares e acabou sem sua ‘plantation’, devastada pela falta de trabalhadores e pelo ‘mal das folhas’, mas com duas cidades ‘americanas’, hoje abandonadas, com praças centrais, calçadas, chalés estilo suíço, hospitais, lojas, cinemas, campos de golfe, piscinas e, é claro, Ford modelos T e A circulando pelas ruas de terra batida”, explica o historiador Greg Grandin, professor associado da New York University e autor de Fordlândia: “The rise and fall of Ford’s forgotten jungle city”, a ser lançado nos EUA em junho.

Sinais do fracasso: 95% das sementes plantadas não germinaram ou morreram, e grande parte da madeira retirada foi queimada. Só em 1933 é que a companhia Ford pediu socorro a James Weir, um técnico em agricultura que trabalhara com seringueiras na Ásia.

Ao observar o “mal das folhas”, a praga que consumia as árvores, o técnico foi taxativo ao propor que a Fordlândia fechasse as portas e transformada num local de experimentos contra o “mal das folhas”. Weir sugeria ainda que fosse criada uma nova plantação em Belterra, cidade-vizinha. E recomendou que se importassem novos híbridos da Malásia, justamente aqueles gerados a partir das sementes roubadas 57 anos antes da Amazônia, proposta vista pelo governo brasileiro como a repetição do golpe britânico.

Apesar de Getúlio Vargas, que assumiu o poder com a revolução de 1930, ter visto com bons olhos a “plantation” de Belterra, após visita ao local em 1940, a Companhia Ford do Brasil não conseguiu vingar o empreendimento como imaginava. Depois de gastar US$ 20 milhões, Ford vendeu tudo ao Brasil por US$ 500 mil.

“Em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, as novas possibilidades abertas com a produção da borracha sintética, a própria especialização da Ford, que passara a concentrar sua indústria somente nos automóveis, e diante das resistências naturais e humanas, a companhia devolveu sua concessão ao governo brasileiro, que a indenizou pelas benfeitorias realizadas”, relata Elaine Lourenço, geógrafa do Centro Universitário Nove de Julho.

Em 1950 as duas cidades foram abandonadas. “Em maio de 1951 chegou o primeiro carregamento de látex de Cingapura no porto de Santos, produzido das árvores que descendiam diretamente das sementes roubadas por Wickham exatos 75 anos. Desde então, o Brasil se viu obrigado a importar látex para fazer frente à sua demanda por borracha”, afirma Grandin.


 

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