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| EDIÇÃO 61 - ABR MAI JUN 2008 - Antonio Carlos Fernandes |
| Pneu deixa de ser o vilão da história da dengue |
| Pesquisa identifica agentes que poderiam contribuir com a reprodução do mosquito Aedes aegypti. O pneu aparece na penúltima posição. |
| A dengue é uma grave doença transmitida pela fêmea do mosquito Aedes aegypti, que se reproduz principalmente no pneu fora de uso, certo? Errado. Durante muito tempo houve o consenso de que o pneu seria o grande vilão da história. O produto, por ser ponto de armazenagem de água, seria facilitador da reprodução do mosquito. Mas hoje o pneu é apontado pelos epidemiologistas apenas como o sexto agente capaz de disseminar a enfermidade e está atrás dos chamados depósitos naturais de água.
O principal agente causador da reprodução da dengue é o depósito de água ao nível do solo, como tonéis e tambores, com índice de 40,5%. Ele é seguido pelos depósitos móveis, como vasos de plantas (21,2%), lixo, em forma de resíduos sólidos (14,5%), depósitos fixos, como calhas e lajes (12,4%), depósito elevado de água, as caixas d’água (6,3%), pneus (3,5%) e depósitos naturais (1,7%).
O cenário do descarte de pneus, que alimentaria a crença de que os pneus inservíveis seriam fator determinante para o alastramento da dengue, tem um desenho atualmente distante dessa imagem. O país foi o primeiro a ter uma legislação específica sobre o assunto.
Pela Resolução 258 do CONAMA - Conselho Nacional de Meio Ambiente -, de 1999, os fabricantes e importadores seriam obrigados a reciclar um pneu para cada quatro pneus fabricados ou importados a partir de 2002. Com uma fórmula progressiva, a partir de 2005 deveriam ser reciclados cinco pneus para cada quatro pneus fabricados ou importados e em alguns anos deveríamos terminar com o passivo ambiental.
Giovanini Evelin Coelho, coordenador geral do Programa Nacional de Combate à Dengue, reconhece que o recolhimento e destinação adequados dos pneus, fruto da ação de toda a cadeia produtiva de pneus, foi importante para reduzir o papel do produto como criadouro do mosquito.
O Brasil formou em um período de 7 anos, segundo o diretor executivo da Arebop – Associação Nacional das Empresas de Reciclagem de Pneus e Artefatos de Borracha –, José Carlos Arnaldi, uma estrutura para a reciclagem dos pneus inservíveis.
O país descarta uma média de 350 mil toneladas de pneus inservíveis por ano. A Arebop, entidade que representa as empresas de reciclagem, conta com 20 associadas, num total de 25 unidades, e responde por 95% do mercado de destinação de pneus ecologicamente tratados.
A organização tem capacidade para receber 300 mil toneladas e deve atingir até o final do ano 350 mil toneladas. A previsão para este ano é de 290 mil toneladas de pneus reciclados, contra 270 mil toneladas no ano passado – o passivo ambiental é de 100 milhões de pneus, o equivalente a 1 milhão de toneladas.
“As nossas empresas associadas estão com capacidade ociosa”, afirma Arnaldi – a Associação prepara um relatório para auto-regulamentação do setor e posteriormente pretende acelerar o processo para certificação das empresas de reciclagem de pneus e artefatos de borracha.
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| Dados equivocados |
| Arnaldi alerta, porém, que os números brasileiros de reciclagem de pneus esbarram em dados equivocados. E os números não são nada desprezíveis. O diretor da Arebop estima que 25% do que teoricamente se recicla no país vêm acompanhados de falhas na medição, principalmente da matéria-prima que é destinada para o asfalto-borracha.
Arnaldi explica que isso acontece com a raspa do pneu recolhida no processo de reforma, o que não configura a destruição do pneu para reutilização da borracha e outras matérias-primas encontradas no produto. Ele calcula que cerca de 50 mil toneladas de pneus que estariam na conta de reciclagem do ano passado, de um total de 270 mil toneladas, seriam do grupo que cometeu enganos na reciclagem.
A solução, segundo ele, estaria na revisão da Resolução. Ele entende que assim poderia ser estabelecido mecanismo que facilitasse ao órgão ambiental, responsável por acompanhar a reciclagem de pneus inservíveis, a implementação de medidas que permitissem aferição correta.
Outra correção no processo de reciclagem, processo que gera hoje 670 empregos diretos e 6 mil indiretos, implicaria também em mexer na Resolução 258, que superdimensionou na época de sua criação a necessidade de reciclagem de pneus no Brasil. Foi então considerado o volume de pneus produzidos para efeito de reciclagem, sendo que há consenso na cadeia que os pneus comercializados no mercado de reposição é que devam ser computados como o volume a ser reciclado.
De acordo com o site da ANIP – Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos -, o país produziu no ano passado 57 milhões de pneus, dos quais 19,8 milhões foram exportados – 900 mil e 200 mil toneladas, respectivamente.
Ainda segundo dados colhidos no site da ANIP, uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), da Secretaria de Ciência, Tecnologia, Desenvolvimento Econômico e Turismo do Estado de São Paulo (USP), cerca de 22 milhões de pneus são trocados por ano no país. Destes, 10,3 milhões de pneus usados podem retornar ao mercado para serem ainda utilizados nos veículos ou submetidos a algum tipo de reforma. Os 11,7 milhões de pneus restantes são inservíveis. Dos inservíveis, 3,1 milhões têm destinação ambientalmente adequada e regulamentada transformando-se em combustível e matéria-prima.
Em 2006, em uma pesquisa de hábito dos consumidores realizada pelo mesmo órgão, cerca de 8 milhões de pneus usados ficaram com os proprietários mesmo após a aquisição de um pneu novo. O consumidor pensa que outros vão ganhar dinheiro com um objeto que lhe pertencera e acaba mantendo um bem sem nenhuma utilidade prática.
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| Epidemia no Rio de Janeiro |
Giovanini Evelin Coelho, coordenador geral do Programa Nacional de Combate à Dengue, comenta que a dengue é uma endemia hoje no Brasil e que, no caso do Rio de Janeiro, o quadro é de epidemia – forma mais grave da endemia.
O pneu abandonado, devido à cor escura e longa durabilidade, torna-se um criadouro da dengue e ainda figura como agente reprodutor da doença, embora numa posição pequena em relação aos demais agentes. O processo de coleta e reciclagem de pneus reduziu drasticamente a proliferação do mosquito por influência do produto.
A Secretaria de Vigilância em Saúde consolidou os números do acompanhamento da dengue no Brasil. Até a 14ª semana de 2008, segundo a Secretaria, foram registrados 230.829 casos notificados da doença no país. Do total registrado, 1.069 são confirmados como de Febre Hemorrágica da Dengue (FHD).
Em relação aos casos de FHD em 2008, 64,2% dos casos estão concentrados no Estado do Rio, 10,2% no Ceará, 6,4% no Rio Grande do Norte e 5,7% no Amazonas.
Para o Rio, há um esforço de se controlar o avanço da doença e evitar as mortes. Hoje, 1.700 militares e três hospitais de campanha reforçam a ação. Também fazem parte da estratégia a contratação de 660 profissionais de saúde; a abertura de mais 119 leitos nos hospitais federais, incluindo 32 de UTI, além dos 104 já disponíveis na regulação; o reforço de 300 profissionais da Funasa no combate aos vetores; a implantação do cartão de acompanhamento do paciente e a intensificação de ligações de telemarketing nas áreas mais atingidas pela doença.
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| Números do esforço federal no combate à dengue |
| • 311 ECOPONTOS implantados, 176 unidades no Sudeste, 80 no Sul, 35 no Centro-Oeste, 12 no Norte e 8 no Nordeste, em articulação com a iniciativa privada, para recolhimento e destino adequado de pneus
• R$ 2,9 bilhões no PAC Saneamento para diminuir a incidência de dengue
• 18.100 agentes de campo cedidos aos estados e municípios
• R$ 55 milhões/ano transferidos adicionalmente para contratação de agentes de campo
• 6.671 agentes contratados em 587 municípios
• 111.039 profissionais capacitados entre médicos, agentes de saúde, supervisores de campo, técnicos em vigilância epidemiológica
• 122 laboratórios para diagnóstico, em todas as unidades federais
• 2 laboratórios de fronteira para monitorar a entrada de novos sorotipos virais
• 4 laboratórios sentinelas para monitorar a resistência dos inseticidas em municípios sentinelas
• 1.858 veículos, 997 nebulizadores, 827 pulverizadores, 477 microscópios e 385 microcomputadores, para fortalecer a infra-estrutura de estados e municípios
• 4 milhões de tampas e capas distribuídos aos municípios para vedação de caixas de água
• 31 consultores contratados para assessoramento às Secretarias Estaduais de Saúde
• R$ 40 milhões investidos em campanhas publicitárias. |
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