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ARQUIVO 29
EDIÇÃO 51 - DEZ 2005 - Francisco Reis
ABR pronta para o futuro
Ademar Nienkotter, Paulo Moreira, Hersílio Coelho de Moura: três homens que ajudaram a escrever a história da Associação Brasileira do Segmento de Reforma de Pneus, uma história de luta que reflete a própria história dos desbravadores que construíram esse setor no Brasil.

Em 1985, cerca de 20 empresários brasileiros do segmento de reforma de pneus encontraram-se em Louisville, nos Estados Unidos, no evento internacional da ITRA – International Tire & Rubber Association, a associação do segmento de reforma de pneus norte-americana. Naquele ano, a ITRA completava 20 anos de existência.

“Percebemos que não tínhamos, no Brasil, uma representação nacional. Embora já existissem algumas associações regionais de reformadores de pneus, faltava ao setor uma representação nacional que conseguisse entender os problemas do setor, defender o setor junto ao Governo Federal e Congresso Nacional e, mais do que isso, uma associação que planejasse o futuro do setor”, comenta Nienkotter.

Em meio ao evento, Nienkotter reuniu os reformadores brasileiros em uma sala de hotel e, juntos, debateram a possibilidade da criação de uma entidade nacional do setor no Brasil. Ali, naquela reunião, nascia a ABR.
Reformador de pneus há 40 anos, em Florianópolis (SC), Nienkotter presidiu a ABR por cerca de 15 anos. Já no ano seguinte ao evento de Louisville, a ABR promoveu sua primeira feira do setor no Brasil, em Salvador, uma feira que começou a dar forma à nova Associação que sur-gia. Nessa feira, muitas das empresas que brilham hoje no setor de reforma de pneu começavam ali sua trajetória de sucesso.

“Naquele ano vivíamos em meio ao congelamento do Plano Cruzado e uma das grandes conquistas da ABR logo em seu início, foi mostrar ao Governo Federal que com reajustes de borrachas e outros insumos era impossível não reajustar os pneus reformados, o que poderia significar a paralisação de setor. Conseguimos aí um reajuste de 16%”, explica Nienkotter.

Para muitos reformadores de pneus a ABR começava aí a justificar sua existência, defendendo o setor e trabalhando para o seu reconhecimento nacional como fonte de emprego, de novas tecnologias, como ferramenta para a redução de consumo de petróleo e, mais importante, como alavanca para uma proteção mais efetiva ao meio-ambiente porque um pneu que pode ser reformado não vai poluir o meio-ambiente.

Além da fundação da ABR, da qual foi participante ativo, Nienkotter assinala que o outro marco relevante na vida da Associação é o verificado em 2004, quando a ABR passou a reunir os setores de reforma de pneus, de produção de equipamentos e de produção de insumos para a reforma.

“Essa foi uma conquista admirável dos homens que me sucederam na ABR, mostrando que a Associação está sempre um passo à frente de seu tempo, compreendendo a importância de construir uma organização forte para a defesa de um setor muito pouco compreendido no Brasil”, assinala.

Paulo Moreira, que assumiu a presidência da ABR a partir de novembro de 2002 mas encontra-se licenciado para tratamento de saúde, vinha atuando como diretor da instituição desde 1986. Para ele, o segmento de reforma de pneus, que hoje reúne não só reformadores mas, também, produtores de equipamentos e de insumos, pode ser considerado um gigante adormecido.

“Apesar das pregações da ABR já há 20 anos, só agora o segmento de reforma de pneus começa a compreender sua importância para a economia do País e a perceber, portanto, que merece ser respeitado. Geramos mais de 25.000 empregos diretos, a maior parte deles em pequenas e médias empresas, literalmente mantemos a frota de caminhões do país em funcionamento, reduzimos a necessidade de importação de petróleo e impedimos que milhares de carcaças de pneus sejam lançadas ao meio-ambiente. Não há muitos segmentos industriais no Brasil com tamanha vocação social”, explica.

Mas enquanto o segmento de reforma começa a conhecer melhor sua importância e sua força, Moreira acredita que a sociedade brasileira – especialmente o Governo Federal – ainda precisa ser informada sobre a enorme contribuição do setor à economia.

“O Governo Federal, assim como o Con-gresso Nacional, precisam compreender a importância para o setor de reforma de pneus da importação de carcaças para reforma. Não há carcaças suficientes no País para atender a demanda, o que está significando escassez de pneus reformados e aumento de preços nas operações logísticas. A ABR reivindica a importação de carcaças apenas para reforma, não para revenda no estado em que são importadas”, assinala.

Moreira lembra que o segmento de reforma de pneus atua em todos os estados brasileiros, gerando empregos especialmente entre os trabalhadores com baixa qualificação, os que mais têm dificuldade em conseguir trabalho. Além disso, sem um mercado ativo de pneus reformados, o setor de transporte de carga por caminhão no Brasil sofrerá um duro impacto, porque o custo de equipar um caminhão com pneus novos pode chegar a R$ 30.000, mas reequipá-lo com pneus reformados, de qualidade, com durabilidade igual ou maior do que os novos, não ultrapassa R$ 6.000.

“Se considerarmos que os custo com pneus é o segundo maior custo de uma frota de caminhões – o primeiro é com óleo diesel – temos aí a relevância do segmento de reforma de pneus para uma economia que movimenta quase que 70% de tudo que transporta por caminhões”, assinala.

Artífice da nova configuração da ABR – que passou a reunir os setores de reforma de pneus, de produção de equipamentos e de insumos para reforma – Moreira acredita que essa configuração preparou a ABR para o futuro: “Começamos o debate da nova configuração da ABR em novembro de 2003 e um ano depois estávamos implementado a nova fórmula. Ela é perfeita para o futuro porque reúne todas as forças econômicas interessadas no desenvolvimento desse setor no Brasil, que antes atuavam de forma isolada e, às vezes, até predatória. Isso não quer dizer que os problemas desapareceram, até porque onde há relações comerciais há conflito, disputa e interesses. O importante é que, agora, essas empresas têm um fórum comum onde debater seus problemas e atuar de forma conjunta para o fortalecimento do setor”, explica.

 

O futuro

Hersílio Coelho de Moura, presidente em exercício da ABR, acredita que o futuro do segmento de reforma de pneus trará novos e intensos desafios: “As dificuldades impostas ao setor em função das restrições à importação de carcaças em condições de reforma, precisam ser encaradas por todos nós como uma tentativa organizada de sufocar nosso segmento, limitando sua possibilidade de expansão. Como empresários, como geradores de empregos, como cidadãos que contribuem efetivamente com o País, reduzindo a dependência por petróleo e contribuindo para a conservação do meio-ambiente, não podemos ficar passivos enquanto tentam comprometer nosso setor e nossos negócios. É importante que usemos todas as nossas forças para mostrar à sociedade que nossa demanda por importação de carcaças em condições de reforma não significa que vamos vender esses pneus do jeito que eles chegam, mas, antes, que eles vão servir para a reforma e vão permitir a continuidade das operações de milhares de caminhões”, enfatiza.

Moura explica que boa parte da desinformação da sociedade sobre o segmento de reforma de pneus deve-se a um trabalho consciente e organizado de outros segmentos que procuram vender a importação de carcaças como um negócio que vai gerar desemprego no País e que resultará em poluição ambiental: “Nada mais errado. No entanto, percebemos que esse tipo de posição reflete os interesses de determinados setores da economia, que buscam limitar a expansão do segmento de reforma de pneus. Precisamos, organizadamente, mostrar à sociedade a importância de nosso segmento não apenas para a geração de empregos, mas, também, para a redução da importação de petróleo e a melhoria da conservação ambiental”, assinala.

Para os três presidentes da ABR, os próximos 20 anos do segmento de reforma de pneus serão marcados por desafios como o da melhoria da qualidade. Eles lembram que os pneus novos produzidos no passado tinham padrões de qualidade bem superiores aos de hoje, o que permitia a reforma de uma carcaça de pneu sem o comprometimento da qualidade. Hoje, os pneus novos – especialmente os de carros de passeio – deixam as fábricas como pneus descartáveis, que não têm como ser reformados após o uso.

“Para uma sociedade como a brasileira, com padrão de renda tão baixo, essa notícia é muito ruim. A reforma de pneu garante maior vida a esse produto, viabiliza o ganho dos transportadores, que já é pequeno, e dá emprego a milhares de pessoas. Como já registramos em diversas matérias na revista Pnews sobre a história dos fundadores do segmento de reforma de pneus, este é um setor construído por homens e mulheres idealistas, inventores, criadores, pessoas que superaram dificuldades imensas para construir empresas que resistem ao tempo. A sociedade brasileira não pode permitir que esse patrimônio se perca”, comenta Moura.

 

 
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