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ARQUIVO 29
EDIÇÃO 50 - OUT 2005 - Katia Siqueira
Futuro do segmento de Reforma de Pneus no Brasil
O setor precisa defender com vigor a importação de carcaças de pneus para suprir o mercado que absorve mais de 12 milhões de pneus reformados por ano.
O futuro do segmento de Reforma de Pneus, de acordo com os dirigentes de várias entidades que representam o setor em vários estados, vai depender de alguns fatores como a regulamentação do segmento pelo Inmetro e a velocidade com que a área de transporte irá se modernizar. Será preciso também, vencer a luta para enquadrar a atividade como recicladora ou verde, para que deixe de ser vista pela sociedade como uma atividade poluidora.

Presente no País há mais de 50 anos, o segmento de reforma de pneus, que movimentou US$ 3 bilhões em 2004 e responde por mais de 100 mil empregos (40 mil diretos e 60 mil indiretos), é uma das atividades mais evoluídas e conceituadas em todo o mundo.

Atualmente, o setor tem uma produção superior a 12 milhões de unidades/ano. Desse total, cerca de oito milhões são destinados à área de transportes de cargas e de passageiros, os quais representam 75% dos negócios, ficando os 25% restantes para os veículos de passeio e máquinas agrícolas.

A matriz do setor, que conta com 1.600 empresas, está dividida da seguinte forma: 43% são pequenas com produção de até 500 pneus/mês; 34% médias com mais de 1.000 pneus/mês e 23% são grandes com fabricação de mais de 1.500 unidades/mês.

De acordo com entidades da área, entre elas a Associação Brasileira do Segmento de Reforma de Pneus (ABR), que está completando 20 anos de atividades neste ano, o segmento de Reforma de Pneus nos últimos anos passou por uma completa revolução, envolvendo as questões quantitativas dos produtos e dos equipamentos, o que levou à equiparação da performance entre novos e reformados.

 

Investindo em tecnologia
Em razão da sua importância, as indústrias de reforma de pneus têm investido grandes somas em tecnologia o que lhes deu propriedade para desenvolver e produzir produtos reformados de características iguais ou superiores aos fabricados no exterior. Graças às inovações introduzidas, os produtos desenvolvidos pelo setor podem gerar uma economia de até 57% no custo do quilômetro rodado em relação a um produto novo, além de proporcionar economia de matéria-prima.

De acordo com empresários da área, o aprimoramento no setor veio da evolução dos materiais usados na linha de produção, das técnicas de aplicação e dos equipamentos empregados no processo. “A curva de modernização do setor pode ser vista como uma linha de 45º, há mais de 10 anos, o que não quer dizer que não existam desafios a serem conquistados. No meu entender, precisamos suprir o mercado de volume suficiente de carcaças de boa qualidade para atender a demanda”, diz Paulo Fernando Moreira, presidente da ABR.

Segundo ele, a entidade tem trabalhado junto ao Governo Federal no sentido de conscientizá-lo sobre a importância de se disponibilizar pneus no volume adequado para equipar os veículos de forma a garantir o transporte necessário à viabilização das metas de crescimento sustentado pela economia, evitando-se assim, o potencial risco de um apagão logístico e a proteção e preservação do meio ambiente com solução e gestão eficazes na disposição de pneus inservíveis, evitando danos ambientais.

 

Importação de pneus

No entender do presidente da ABR, é de fundamental importância para o interesse nacional, garantir e normalizar a oferta de pneus, regulamentando a importação de carcaças como matéria-prima para reforma, devido aos riscos iminentes de colapso no sistema de transporte, assim como do risco de não atingir as metas nacionais.

“Existe deficiência de suprimento de pneus no País. Por isso, necessitamos da importação de carcaças para regularizar a oferta de pneus no mercado. O pneu é elemento fundamental na matriz do transporte e ao mesmo tempo, um problema potencial no plano ambiental, caso sua disposição, quando inservível, não seja feita da maneira correta. Não buscamos importar pneus usados como lixo, mas sim, carcaças de pneus como matéria-prima para o setor de reforma. Do ponto de vista estrutural, a carcaça para reforma tem de oferecer as mesmas características do pneu novo”, diz o presidente da ABR.

No seu entender, o que determina a geração de passivo ambiental é o volume de pneus necessários à operação da matriz de transporte, e não o fato do pneu ser novo ou não. Uma carcaça de pneu importada como matéria-prima para reforma, uma vez processada, proporciona hoje, a mesma vida útil de um pneu novo. Não contribui, portanto, para aumentar o passivo ambiental. Por outro lado, este passivo só será aumentando se não contarmos com um sistema eficaz de reciclagem. “Precisamos defender com vigor a importação de carcaças de pneus para suprir o mercado, principalmente para o transporte rodoviário”, defende.

No caso específico do setor de transporte rodoviário, os pneus reformados têm a função de reduzir os custos operacionais do transportador e dependendo do tipo, a reforma custa em torno de 7% a 25% do preço de um pneu novo, oferece desempenho similar a um produto novo.

Segundo os executivos da área, as vantagens do produto reformado em relação ao novo vão além do preço. O pneu novo roda cerca de 80 mil quilômetros (dependendo da via que trafega), enquanto o reformado roda mais ou menos 40% a mais.

Para Agnaldo Alves de Azevedo, diretor estadual da ABR e diretor Presidente da Casa dos Pneus Boa Viagem, companhia fundada em 1987, os maiores desafios a serem conquistados pelas empresas que atuam na área é a consolidação e afirmação do setor, onde possa ser estabelecido um preço mais adequado aos custos elevados do empreendimento.

“Nos últimos anos, o setor se profissionalizou bastante e a tendência é a de continuar. Hoje, o maquinário está cada vez mais exato e preciso. Novos processos e mão-de-obra também são cada vez mais qualificados”, diz Azevedo.

Embora tenha se modernizado, o setor continua tendo um quadro de trabalhadores extremamente masculino. A mão-de-obra feminina ainda é muito pouco utilizada, apesar do trabalho feminino ser muitas vezes mais apurado. “Mas ainda existe uma certa marginalização no segmento. E achamos que a diferença entre os dois seja uma maior sensibilidade feminina”, confessa Azevedo.

Com 29 funcionários e uma produção que poderá alcançar a casa das 13,1 mil unidades em 2005, contra 12,1 mil em 2004, a empresa acredita que terminará 2005 com um faturamento de R$ 3,8 milhões, quase R$ 1 milhão acima do valor registrado no ano passado. Diante do bom desempenho dos dois últimos exercícios, sua diretoria projeta valores da ordem de R$ 4,7 milhões para 2006.

Na visão do diretor da Renovadora de Pneus Olico, Carlos Alberto V. de Oliveira, que responde também pela presidência do Sindicato das Indústrias e Recauchutagem e de Prestação de Serviços de Reforma de Pneus e Similares do Estado do Ceará (Sindipneu), o futuro da sua empresa passa pelo estabelecimento de alianças estratégicas na área de atuação com clientes e parceiros para tornar-se o melhor prestador de serviço em soluções na administração de pneus.

Ele acredita que o principal desafio a ser enfrentado é ser reconhecido no Nordeste do Brasil como empresa prestadora de serviços de excelência no gerenciamento de pneus visando a redução de custo para o cliente aliado a maior performance e produtividade no uso dos pneus. “Creio também no crescimento do Bandag Truck Service (BTS) na faixa de 200% em 2006”, acrescenta.

A empresa, grande representante de reforma de pneus pelo processo Bandag, que foi fundada em 1986 e conta com filiais em vários estados do Brasil com certificação ISO 9001-2000, investe cerca de R$ 150 mil anualmente em formação profissional e em novas tecnologias. “Nós temos programas de treinamento interno de reciclagem, preparando todo o pessoal tecnicamente para uma prestação de serviços de qualidade, buscando atender as necessidades e expectativas dos clientes”, afirma Oliveira.

 

Meio ambiente

Quando o tema é meio ambiente, Oliveira é firme em sua resposta: “recauchutagem é reciclagem! Como líder em recapagem de pneus no Nordeste, a contribuição da Olico é fundamental. Todos os anos, a empresa evita que milhares de pneus sejam despejados em aterros ou empilhados ao ar livre em canais”.

Na opinião de Ranieri Roldi, presidente do Sindicato da Indústria da Borracha e da Recauchutagem de Pneus no Estado do Espírito Santo (Sindibores) e diretor da Sodam Recauchutadora de Pneus, que têm sedes em Vitória e Colatina/ES, respectivamente, o setor tem pela frente o desafio de conquistar a credibilidade do consumidor final, da sociedade de um modo geral, “pois muitas vezes somos comparados a borracheiros. E, principalmente, mostrar à Nação, a importância do segmento de reforma para o meio ambiente e para a economia”, afirma Roldi.

Segundo ele, o setor se modernizou bastante nos últimos anos, mas raríssimas empresas utilizam mulheres na produção e nas borracharias, mas, com as mudanças que o mercado vem sofrendo, principalmente na parte tecnológica, a tendência é que este número venha aumentar. Pois a única diferença entre o profissionalismo masculino e o feminino seria a força bruta, que algumas vezes é necessária.

De acordo com Roldi, o petróleo exerce grande influência sobre o valor do produto final porque os fornecedores de matéria-prima, quando reajustam seus preços, dizem que o barril de petróleo está a X dólar, sendo que o Brasil é auto-suficiente em matéria de petróleo. Fundada em 1991, sua empresa tem 30 funcionários, fechou 2004 com uma produção de 9.000 unidades e se prepara para produzir 9.500 em 2005.

Na opinião de Orfilo Henrique Teixeira Pena, diretor estadual da ABR e presidente da Vulcanização Sorocabana Pneus Ltda., existe um paradoxo entre o dólar e o petróleo. “Nossos fabricantes de matéria-prima utilizam produtos fornecidos por empresas químicas e petroquímicas de expressão internacional, formando muitas delas monopólio de produtos primários, portanto, quando o dólar e o petróleo sobem, sobe o valor dos produtos” explica Pena.

A Vulcanização Sorocabana foi uma das primeiras a ingressar neste mercado. Fundada em 1959, ela emprega 94 funcionários, que têm respondido pela boa performance da companhia. Em 2004, a produção da empresa alcançou as 48 mil unidades (sendo 30 mil para atender o segmento de carga). “Para este ano, analisando a situação com bastante otimismo, creio que fecharemos com o mesmo volume do ano passado”, projeta Pena, que aponta como as maiores conquistas dos empresários da área, a consolidação do setor. O Brasil, por ter dimensões continentais e pelo fato de 60% do transporte ser feito por caminhões, fortaleceu o segmento. “Eu diria que sem nosso setor, teríamos de reinventar um novo País. No campo tecnológico, somos considerados de igual importância aos países desenvolvidos. No institucional, estamos com representação e reconhecimento dos poderes executivos e legislativos graças às ações da nossa ABR. Destacaria como maior importância futura, a conscientização e o comprometimento do setor com o meio ambiente, reformar e logicamente reciclar. Portanto, lutamos para sermos reconhecidos como segmento industrial verde”, aponta.

Fatores mais recentes dizem respeito à aprovação do Projeto de Lei Suplementar nº 216 (PLS 216) que tramita no Senado, e trata da regulamentação da importação de carcaças como matéria-prima para o segmento e da certificação do Inmetro obrigatória para pneus de passeio a partir de 01/06/2006 e, também, da formatação das condições técnicas certificadoras para pneus de carga.

 

Retrospectiva

Pena considera importante fazer um retrocesso sobre o comportamento do setor desde a sua instalação no País. No seu entender, a evolução poderia ser dividida em três fases. Até a década de 70, quando o segmento operava 100% com sistema de vulcanização a quente, com equipamentos e instrumentos na sua quase totalidade sendo manuais e com poucos recursos técnicos.

De 80 a 90, com a introdução e radicalização das carcaças de carga e passeio deu-se um enorme salto qualitativo do processo com o início do sistema a frio (autoclaves) e as máquinas de vulcanização a quente setoriais (seis partes), novidades em nosso País. Neste período, as empresas já operavam com tecnologia automática. Houve nesta época também, formação profissional mais adequada com as necessidades do mercado.

Da década de 90 aos dias de hoje, houve mudança radical no comportamento empresarial. Necessidade de corpo profissional de conhecimento técnico adequado às novas condições e exigências de nossos consumidores. Equipamentos controlados eletronicamente por sistemas computadorizados. Os fabricantes de matérias-primas (borracha) montaram suas redes de concessionárias tendo o foco no pré e pós-venda com inserções e controle de frota. Produtos específicos para cada tipo e necessidade de cada usuário, bandas pré-curadas com desenhos exclusivos em condições de resultados superiores aos pneus novos.

Pena acha que o nosso mercado está no patamar da globalização, pois embora seja uma atividade de prestação de serviços, já há sinais de concorrência externa. Ele crê no potencial nacional e na necessidade de termos entidades nacional e estaduais fortes e atuantes. “É imperativo associarmos nosso nome ao meio ambiente como indústria de recicladora de produtos não renováveis (petróleo) e conscientizar o usuário de forma ostensiva da segurança hoje empregada no processo de reforma de pneus”, afirma Pena.

Na questão de sucessão, ele acredita que a segunda geração assumirá de forma mais harmoniosa e natural. As empresas do setor têm foco familiar, portanto, na próxima administração deverá ser mais profissional no aspecto sucessório.

Paulo Fernando Moreira, diz que a sua empresa, cuja razão social é Sorocap Recauchutagem Sorocaba Ltda., a exemplo de muitas outras do setor, tem investido constantemente em novas tecnologias e capacitação técnica dos seus funcionários para torná-los aptos a oferecer as inovações exigidas pelos clientes.

Com uma linha de produtos voltada para reforma de pneus veiculares de transporte, a Sorocap foi fundada em 1968 e, atualmente, emprega 50 pessoas, as quais são as responsáveis pelo sucesso da companhia, que em 2004 executou a reforma de 35 mil pneus. “Este ano poderemos superar as 36 mil unidades”, projeta Moreira.

 

Sucessão familiar

Tendo como maiores usuários os grandes frotistas do transporte rodoviário de carga, as empresas que atuam na área, a exemplo de outros segmentos, sofrem da falta de profissionais especializados para atender a demanda. “É justamente por isso que nossas indústrias investem tanto em capacitação técnica”, informa Moreira.

Em contrapartida, a questão da sucessão familiar caminha de vento em popa e dá um nó na cabeça de muitos executivos de outros setores que vivem problemas terríveis, quando a pauta é delegar a administração das empresas às novas gerações.

“Creio que apenas 30% das nossas empresas têm problemas de sucessão. A segunda e a terceira gerações estão abraçando e assumindo a administração da companhia dentro do que se espera de uma geração mais preparada e promissora”, assegura.

A Walmor Renovadora de Pneus Ltda., por exemplo, está completando 40 anos de existência no setor de reforma de pneus de transportes de carga, passageiros, industrial pneumático, sólido e maciço está entrando na segunda geração sem grandes problemas. “Nosso grande desafio para o futuro não é quanto à sucessão, mas sim, em aumentar a quantidade de modelos e medidas reformados para atender o setor industrial”, comenta Roberto Oliveira, diretor estadual da ABR e da Walmor.

Fundada em 1965, a empresa com produção estimada em 11.800 unidades para 2005, vem evoluindo no setor desenvolvendo serviços inéditos no Brasil, buscando informações e tecnologia na Europa e África do Sul.

De acordo com Oliveira, neste momento, a empresa não é simplesmente uma reformadora de pneus. “Nós trabalhamos como uma grande família onde todos lutam pela mesma causa”, confessa.

 

 
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