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ARQUIVO 29
EDIÇÃO 48 - ABR 2005 - Graziela Potenza
Ser lucrativo, por quê?
Na hora de cobrar o preço de seus serviços, a maioria dos recapadores acaba usando somente o seu lado emocional, deixando a razão em segundo plano. Essa atitude prejudica a lucratividade e, conseqüentemente, dificulta novos investimentos no negócio.
A lucratividade das recapadoras de pneus está muito baixa”, revela João Arthur Fontana Mohr, gerente comercial da Rex Pneus. As cerca de 1.260 recapadoras brasileiras, do setor de carga, estão passando por uma fase de adaptação e ajustes com intuito de manter a sua lucratividade.

Há 20 anos, o cenário desse segmento era o oposto. A maioria das recapadoras trabalhava com lucratividade alta. Para se ter uma idéia, a matéria-prima representava 33% da formação do preço do pneu, ou seja, apenas 1/3. Hoje, essa participação subiu para 50%.

Segundo João Mohr, esse aumento da matéria-prima e a famosa lei da oferta e da procura são fatores que interferiram diretamente na lucratividade das recapadoras de pneus no Brasil. Hoje, existe um grande número de recapadoras, fazendo com que a capacidade instalada seja muito acima da necessidade de mercado, o que força a queda dos preços.

Mas os fatores que interferem nessa queda de lucratividade vão mais além. Outro motivo é o próprio reformador. Infelizmente, a maioria deles não sabe lidar com os custos de produção. Gradativamente, o mercado foi mudando e os recapadores não se deram conta que precisavam se adaptar a uma lucratividade baixa, onde a análise de custos é fundamental para manter a “saúde” do seu negócio.

Francisco Barone, economista e coordenador do Programa de Estudos Avançados em Pequenos Negócios, Empreendedorismo e Microfinanças da Faculdade Getúlio Var gas (FGV), concorda com a opinião de João Mohr. Segundo ele, as pequenas e médias empresas, em geral, possuem uma certa dificuldade em técnica de gestão financeira.

Ele cita o resultado da pesquisa de “Causas de mortalidade fatores condicionantes de quebras de micros e médias empresas” do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). “Ela aponta que a maioria está ligada à gestão financeira, sobretudo, ao capital de giro e ao uso de crédito”, lembra Barone.

O professor da FGV dá uma dica para quem está desenvolvendo uma atividade produtiva. “Saiba formar o seu preço de custo e depois o seu preço de venda. É importante colocar a margem de lucro de acordo com o seu setor. Nem cobrar muito e nem pouco, mas conservar o bom senso e operar na média para não perder mercado”.

 

Mudanças no mercado

Há dez anos vem ocorrendo uma mudança na formação e negociação de contratos entre os reformadores e seus fornecedores. No passado, eles compravam de diversas empresas. Não tinham uma bandeira fixa, ou seja, vínculo com alguma marca de produtos de borracha. “Isso possibilitava um poder de barganha de preço muito grande”, fala Mohr.

Com o passar dos anos, esses reformadores adotaram bandeira, comprando borracha de uma determinada marca. Por um lado, foi bom porque sua imagem ficou mais reforçada. Por outro, o poder de barganha diminuiu já que a negociação ficou mais centralizada. “Com sucessivos aumentos de preços de materiais, os reformadores acabaram absorvendo para si e não conseguiram repassar para o mercado, em função do excesso de oferta”.

Outro fator que também influencia na lucratividade do setor, é a mudança no perfil do pneu. “Antigamente, eles eram mais estreitos. Sua largura era de 22 cm e, durante a reforma, utilizavam borrachas com 14 mm de profundidade. Hoje, os pneus estão mais largos e os recapadores usam borrachas com 22 mm de profundidade”, diz.

Essa alteração representou mudança no peso do produto aplicado. Para se ter uma noção, antes, por exemplo, colocava-se 12 quilos de borracha em cima de um pneu. Hoje, em média, nesse mesmo pneu coloca-se 15 quilos. “Além do aumento do preço da matéria-prima ocorreu o acréscimo na quantidade de produto aplicado e o reformador continua cobrando pelo mesmo sistema antigo”.

 

Razão x Emoção

O ponto principal é a questão de conhecimento de custos. Hoje, a maioria dos reformadores não calcula custos. Na hora de formar o seu preço ele é levado pela emoção e não pela razão. Se o seu concorrente abaixa o valor ele acaba abaixando ainda mais, independente se está afetando o seu lucro. “É melhor fazer 500 pneus obtendo lucro de que 3.000 tendo prejuízo”, lembra.

Para manter a “saúde” do seu negócio o reformador precisa fazer a remuneração da sua área de venda (ou comercial) não pelo faturamento da empresa, mas sim pelo resultado que ela obtenha. Muitas recapadoras continuam pagando a comissão do seu pessoal de vendas pelo faturamento. Esse costume interfere negativamente na lucratividade da empresa.

A ABR vem trabalhando com afinco para orientar e conscientizar os reformadores em relação a todos esses aspectos. Um segmento forte é fundamental à economia do País, só tem que melhorar e crescer equivalendo-se ao dos países desenvolvidos. Na Europa e nos EUA, uma recapagem de pneu custa entre 45% a 50% em relação ao preço de um pneu novo. Na Argentina e no Paraguai, em média, ela custa 33% e no Brasil ela custa apenas 22%. “Hoje nós tínhamos que estar trabalhando nos níveis de 33%. Ninguém está querendo lucro exorbitante. Só assim, nós teríamos lucratividade para remunerar os nossos investimentos”, finaliza João Mohr.

Manter um negócio não é uma aventura, mas sim exige que o empresário compatibilize atitudes de curto prazo com uma visão de médio/longo prazo. Lucratividade é o fundamento de qualquer negócio, sendo que no setor de reforma de pneus a lucratividade é absolutamente necessária para poder fazer frente a investimentos na atualização tecnológica das instalações para poder manter a competitividade do negócio, além de permitir investimentos na melhoria do atendimento dos clientes que são a razão de ser da atividade empresarial.

Por estes motivos devemos profissionalizar cada vez mais nossas empresas e desenvolver um negócio que possa continuar a prestar serviços de qualidade no mercado com uma rentabilidade adequada para o investidor.

Uma estrutura de custo divide-se basicamente em quatro itens, considerando o preço do pneu 100%:

1 - Matéria-prima (banda + ligação) equivale a 50%

2 - Despesas com apanha, ou seja, coleta, entrega e venda (veículos, combustível, lavagem) equivale a 10%

3 - Custos fixos de uma recapadora (mão-de-obra, energia elétrica, depreciação de equipamentos, aluguel, telefone, entre outros) equivale a 20%

4 - Impostos, equivale a 12,5%

O que sobra é 7,5% que seria o resultado. O ideal seria 10%.

 

 
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